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So you think you can dance…

Se tem uma teoria em que eu acredito firmemente é a de que Chico Buarque é o culpado por existir tanta gente feia por aí. É que ele passou na fila da beleza tantas, mas tantas vezes, que não sobrou nada pra mais ninguém.

Eu, antes de nascer, devo ter entrado em algumas filas e pulado outras. Na da procrastinação, por exemplo, eu só não entrei mais vezes porque eu enrolei tanto que quando fui entrar de novo, já tinha fechado. Na do talento pra escrever eu entrei algumas vezes, se bem que conheço muitas pessoas que entraram muito mais vezes do que eu. E, se tinha uma fila para dedão do pé batatudo, é fato que eu roubei o estoque todo para mim.

Uma fila em que eu com certeza entrei logo depois do Carlinhos de Jesus, da Ana Botafogo e da Scheila Carvalho foi a fila da dança.

Certeza.

Não sobrou nada pra mim.

Eu nunca soube dançar. Nunca. Até hoje quando eu assisto o VHS da minha apresentação do Jardim II, nos idos de 1989, dançando ao som de Stay, do Oingo Boingo, eu me envergonho de mim mesma. Eu giro pro lado errado, eu derrubo o pompom no chão umas duas vezes, eu começo todos os passos depois de olhar pra a minha amiga do lado pra ver o que ela estava fazendo. Não sei como minha mãe na platéia, grávida do meu irmão, não entrou em trabalho de parto de tanto constrangimento.

De lá pra cá, não dá pra dizer que a coisa melhorou muito. Eu sempre fui daquelas que ficava segurando os copos de cerveja enquanto o pessoal se acabava na pista. Eu nunca aprendi nenhuma coreografia do É o Tchan, nem do Gerasamba. Eu nem sequer consegui dominar por completo os passinhos da Macarena. Eu assisti do sofá a todas as minhas amigas imitarem com perfeição os movimentos de Everybody, dos Backstreet Boys. O máximo que eu sempre consegui foi batucar os dedos na mesa – e geralmente eu precisava estar prestando bastante atenção, se não perdia o ritmo.

Sem falar do medo de, numa ocasião dançante qualquer, ser puxada por um cavalheiro, com o argumento de que “mulher nasce sabendo” ou “pode deixar que eu te guio”. Porque, como eu já disse lá em cima, não, eu não nasci sabendo. E, francamente, guiar uma porta, eu tento então explicar para o rapaz, seria bem menos desconfortável. Mais fácil fingir um ataque severo de epilepsia que se deixar ser levada para a pista.

Até que um dia eu resolvi que ia ser a última vez que eu ia passar vergonha. Que eu iria enfrentar a situação de frente. Joguei ‘dança de salão’ no Google e me matriculei na escola que apareceu no topo da busca. O curso era para quem não conhecia nada, então tinha um mês de cada ritmo. Comecei com o samba-rock, mas eu poderia ter começado com a valsa vienense, com o tango ou com o cha cha cha, que pra mim era tudo a mesma coisa.

Chegando na escola, minha aula era depois de um grupo ultra avançado (ou, de repente, eles estavam no segundo dia do curso básico. De novo, era tudo a mesma coisa para mim). Eu gelei. Fiz menção de correr dali a passos largos algumas vezes. Mas tal era a desenvoltura daquele povo, que eu comecei a questionar a minha habilidade de sequer mexer as pernas coordenadamente, e acabei ficando.

Se me dissessem, a essa altura do campeonato, que esse casal está dançando forró, I would totally buy it.

A aula começou com o professor explicando o que era samba rock. Senti que eu deveria ter levado um caderno para fazer anotações. Daí ele ligou a música e eu quase fiz xixi de medo. Fizemos alguns passinhos olhando para o espelho. Dois pra lá, dois pra cá. Um, dois, três, um, dois, três. Quando eu estava começando a me sentir menos deselegante, ele pediu que cada moço convidasse uma moça para ser seu par. E aí, e eu estou só conjecturando, porque minha memória desse momento está bloqueada para todo o sempre, eu realmente devo ter me mijado de pavor.

Porque pensa, se é difícil fazer tudo aquilo sozinha, imagina coordenar tudo aquilo com alguém?

Mas esse é só o começo. Hoje, alguns meses, diversas aulas e muitos pisões de pé depois, posso dizer que sou uma pessoa realizada. Consigo não passar mais vergonha no samba-rock, na gafieira e no forró, mando um ou outro passinho de salsa e até merengue já dancei. (eu aprendi alguns passos básicos de zouk também, mas por alguma razão, não consigo me afeiçoar com o negócio). Não é improvável que você me encontre no Diquinta, no Canto da Ema, ou numa boca de dança qualquer por aí.

E essa é uma história de determinação, dedicação e força de vontade. Cole no seu mural do Facebook, recomende no Twitter, crie uma corrente de e-mail, envie para aqueles que passam por um momento de dificuldade.

Porque se eu consegui aprender a dançar, meu amigo, qualquer um é capaz de qualquer coisa.

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