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Série: Ônibus

Três histórias que me ocorreram dentro do coletivo, e que foram publicadas entre 2006 e 2008 num blog antigo.

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– Eu era tão feio que nem minha mãe me quis!

Adotado ainda bebê, ele tinha raquitismo e mais um monte de doenças.

– Desculpa o comentário moça, mas você não tem barriga nenhuma!!! Como você consegue? Sabe, é que eu já perdi 360 quilos. Fiz cirurgia de estômago e fiquei dois anos internado.

Engordou de tanto tomar remédio quando criança. Depois da cirurgia de redução do estômago, ficou com artrose como sequela.

– Caaaalma moça! Tem que encostar o cartão se não você não passa!

Em São Paulo há dez meses, trabalha como cobrador de ônibus há dois.

– Vim pra São Paulo com emprego, mas saí porque meu chefe era muito nervoso! Fiquei um mês pensando no que fazer… pensando em voltar pra casa… Daí consegui este emprego porque tinha vaga pra deficiente. Preenchi a ficha num dia, no outro comecei a trabalhar.

O sotaque arrastado não nega sua origem.

– Sou de um dos quatro “b” de Minas: Belzonte, Beraba, Berlândia e a bosta de Araguari! Hahaha, eles ficam danados quando a gente fala isso!

Do salário que ganha como cobrador, boa parte vai para os pais, que continuaram em Minas.

– Meu pai tá com aquele maldito câncer de próstata. E o velho é teimoso e não trata…

Por causa da falta de dinheiro, mora num galpão atrás de um bar, do outro lado da rua em relação à garagem de ônibus.

– Eu pago setenta reais. Se eu gastar mais, não tenho como mandar nada pros meus pais. Tem uma cama com um cobertor, mas eu quero comprar mais um porque tá muito frio, e ataca minha artrose. Mas é jóia lá. Seu Hélio do bar é gente fina, deixa eu comer e pagar só no dia 20.

Além disso, tem más recordações das pensões.

– Eu dormia num quartinho com mais um homem numa pensão em Guarulhos. Eu não tinha nada de valor, só uma coleção de isqueiros que eu juntei por 15 anos. E não é que me levaram a coleção embora? E levaram também uma garrafinha de plástico de água. No galpão eu durmo sozinho, é jóia.

Durante uma tentativa frustrada de paquerar uma passageira, descobre que ela é casada.

– É bom ser casar?

Solteiro, sua única família são os pais.

– Minha mãe chora todos os dias pedindo pra eu voltar. Aqui em São Paulo? Aqui somos só eu e Deus! E meus anjos da guarda!

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Ela entrou no ônibus e sentou na primeira cadeira, reservada para idosos, gestantes, deficientes físicos e mulheres portando crianças de colo. Mas duvido que se entrasse alguém que cumprisse um desses requisitos iriam ter coragem de mandar ela levantar.

Subiu com dificuldade e sentou com cuidado, equilibrando duas bolsas, uma pasta e um celular pendurado na orelha. Ela era gordinha, bem gordinha, e isso só dificultou o processo.

Mal colocou a bunda na cadeira, desatou a engatar uma conversa telefônica na outra. Às vezes, ela intercalava ligações para a mesma pessoa. No total, devem ter sido uns cinco ou seis interlocutores, umas dez ou doze chamadas.

Um deles devia ser um irmão. Podia ser uma irmã, mas por algum motivo eu presumi que fosse um irmão. Ela contava do terror de um depósito estornado pela Nossa Caixa. Era o pagamento do condomínio da mãe dela. 500 reais. Minha pobre cabecinha de pobre que mora em prédio de dois andares não pode conceber como alguém gasta 500 reais no condomínio. Mas enfim.

A coisa é que ela fez o depósito no dia 5, mas os filasdaputa do banco só avisaram do estorno ontem. A pobrezinha teve que tirar o dinheiro da aplicação para pagar o condomínio e ainda teve que arcar com multa por atraso. E ainda ia ter que tirar dinheiro da suada aplicação para pagar o mercado e a consulta médica da mãe. O resto, o irmão ficou de pagar.

E ela ainda teve que aguentar a grosseria da funcionária do banco. Também pudera. Quem passou o telefone dela pra o banco foi o ex-marido. O louco, louco, lou-co, LOUCO do ex-marido. A mulher do banco passou um carão.

Aí foi aquele sufoco. E ainda por cima, a mãe dela que não deixou os documentos em cima da mesa como ela pediu. A porra dos documentos, como ouviu o irmão (ou irmã). Mas ela ama a mãe dela, e isso é o que importa no final.

Nos curtos intervalos entre as chamadas (enquanto o próximo não atendia) ela bufava, suspirava, falava sozinha. Deve ter sido o baque da separação. Ela saiu de casa do ex-marido na sexta, e ainda precisava ir pegar as cartas e contas no prédio dele (na rua Aimberê), com o simpático porteiro. Como será que ela aguentou ficar casada com aquele LOU-CO?

Com o mesmo jeito desajeitado da subida, ela desceu do ônibus. Pela frente, não sei por quê. Eu desci no mesmo ponto, pela porta de trás. Quando passei do seu lado, vi pela primeira vez seu rosto. Bonita.

Pensei em dar um tapinha nas costas dela e dizer “relaxa, vai dar tudo certo”. Mas deixei pra lá.

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Ontem eu peguei ônibus com o Manoel Carlos. Verdade!

Tá, na verdade, é provável que fosse alguém bem parecido com ele. Mas como na minha vida reina o improvável, resolvi assumir que era ele. Por precaução. Melhor ficar bonitinha, né? Porque eu pensei… Ele mora no Rio e, certamente, não anda de busão, então, com certeza, deve estar… hmmm, sei lá, procurando personagens para sua novela… Vai saber… tem sempre um núcleo pobre, né?

Assim, na iminência de me tornar uma Helena, uma Clara ou algo do tipo, resolvi me comportar direitinho, o que significa, em termos práticos, deixar de lado quase todos os traços da minha personalidade habitual. Aliás, sorte que eu sou menina. Se fosse menino, o nome do meu personagem seria Fred, ou Viriato. Aliás, alguém já viu alguém chamado Viriato em algum lugar que não fosse uma novela do Manoel Carlos?

Então, na janela estava sentado o Maneco, só observando e tomando notas mentais para o novo folhetim das oito. Eu estava na cadeira do corredor. Daí entra um senhor e se posta bem do meu lado. Assim, quando você está sentado e fica alguém de pé, virado para você. Só que o senhor estava com a braguilha aberta. Eu então concentrei todo o meu pensamento positivo na hipótese daquilo não ser proposital. Afinal, em um ônibus lotado, a coisa que você menos quer é ter um tarado com a braguilha aberta apontada para você. Ele provavelmente vai ser Viriato, o desatento. (eu me lembro que em uma o Viriato era o impotente)

Atrás de mim, duas meninas conversavam sobre temas corriqueiros, como a solidão dos cachorros e a comunicação dos passarinhos, feita, é claro, por meio do silêncio (ao contrário de nós seres humanos, que preferimos a fala). De repente, elas começaram a falar sobre o último livro do Harry Potter, que tinham terminado de ler. E, numa dessas, uma delas fez um comentário sobre alguma coisa do final do livro.

Nisso, uma menina, que estava atrás delas (a duas cadeiras da minha), começou um escândalo. Ela estava lendo o livro, ainda, e ficou puta com a indiscrição das meninas, contando o final para quem quisesse ouvir. Foi briga mesmo, de falar alto e colocar o dedo na cara, mas eu, infelizmente, tive que descer do ônibus dois pontos depois, e não fiquei a tempo de ver o sangue e tudo mais. Não que eu não abriria mão de descer no meu ponto só pra ouvir a briga, mas é que o Mr. Braguilha realmente já estava me irritando.

Mas, se a novela fosse minha, e eu quase sugeri isso para o Maneco, aquelas que contaram o final do livro seriam as do mal. Afinal, poxa, isso não se faz. Eu não li nenhum dos Harry Potter (é, e eu também não gosto do Johnny Depp, tá, podem me cruxificar), mas se fosse Lost, por exemplo, eu também partia para a porrada.

Na hora de descer, me esqueci da minha promessa de bom comportamento, e derrubei três livros, minha piauí, uma blusa e uma moedinha de um real (que está perdida até agora), que se espalharam por todo o chão do ônibus.

A próxima novela das oito vai pegar fogo.

Pelo menos no que diz respeito ao núcleo pobre.

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