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Ah, mundo blogueiro…

Eu comecei a escrever em blog em 2001.

Na época, a gente escrevia sobre o dia a dia mesmo, blog era sinônimo de diário virtual. A maioria dos blogs eram escritos por meninas, mas também tinha alguns meninos. A moda era fazer os próprios layouts e mudar sempre. Eu fiz muitas amizades nesse tempo. Era assim: a gente começava a comentar um no blog do outro, depois linkava, depois adicionava no ICQ pra bater papo. Algumas amizades do mundo blogueiro eu levei pro mundo real. Em especial, eu fiz um amigo que, durante um ano ou dois, foi um dos meus melhores amigos.

Em 2006, eu abri o meu primeiro blog que tinha como objetivo escrever mesmo. E a partir daí, eu conheci muita gente interessante também. A coisa já estava um pouco mais evoluída em termos de comunicação:  foi na comunidade do Blogspot, no Orkut, que eu entrei em contato com vários blogs legais, muitos dos quais, mesmo que endereços diferentes, eu visito até hoje.

Hoje, em especial, eu vou falar de duas blogueiras muito queridas, que eu conheci nessa época dos blogs “de quem gosta de escrever”. Nenhuma das duas eu conheço pessoalmente, apesar de admirá-las muito como escritoras, e de termos muitas coisas em comum.

A primeira é a Isa, do Is-Adorable. Ela já teve pelo menos uns vinte blogs desde que eu a conheci, mas todos sempre me chamaram a atenção pelos ótimos textos, daqueles que dá vontade da gente se jogar na janela por não tê-los escrito. Eu sempre morro de inveja das histórias que a Isa consegue contar, e das sacadas que ela tem. Em resumo: se tem um blog ao qual eu pago um imenso pau, esse blog é o da Isa. Fora que eu e a Isa temos histórias que em muitos momentos são parecidas: fizemos os mesmos cursos nas mesmas faculdades, por exemplo, apesar dela ter entrado em cada um uns quatro anos depois de mim. Ah, e nós duas adoramos potchar.

Dela, vou deixar como dica esse post aqui, porque eu adoro histórias sobre palavras. Mas o blog todo é genial.

A segunda é a Nati, do Um Pouco de Bossa. Pra explicar o que é a Nati, vou pedir pra vocês fecharem os olhos e pensarem sei lá, numa nuvem de algodão doce colorido, em mil unicórnios cor-de-rosa, em um arco íris duplo depois de uma chuva de verão… Ou sei lá, na coisa mais fofa que vier na sua cabeça. Essa é a Nati. A Nati também já passou por vários blogs e até de nome já mudou, mas nunca deixou de escrever com talento e delicadeza. Nós também temos muitas coisas em comum, como o fato de termos estudado Jornalismo ou de não resistirmos a um mocinho de barba mal-feita. A Nati mora looooonge, longe, mas é tão querida que às vezes nem parece que existe toda essa distância ou que nunca nos vimos pessoalmente.

Dela, eu deixo o link para esse post aqui. Mas, de novo, vale a pena passear pelo blog inteiro.

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So you think you can dance…

Se tem uma teoria em que eu acredito firmemente é a de que Chico Buarque é o culpado por existir tanta gente feia por aí. É que ele passou na fila da beleza tantas, mas tantas vezes, que não sobrou nada pra mais ninguém.

Eu, antes de nascer, devo ter entrado em algumas filas e pulado outras. Na da procrastinação, por exemplo, eu só não entrei mais vezes porque eu enrolei tanto que quando fui entrar de novo, já tinha fechado. Na do talento pra escrever eu entrei algumas vezes, se bem que conheço muitas pessoas que entraram muito mais vezes do que eu. E, se tinha uma fila para dedão do pé batatudo, é fato que eu roubei o estoque todo para mim.

Uma fila em que eu com certeza entrei logo depois do Carlinhos de Jesus, da Ana Botafogo e da Scheila Carvalho foi a fila da dança.

Certeza.

Não sobrou nada pra mim.

Eu nunca soube dançar. Nunca. Até hoje quando eu assisto o VHS da minha apresentação do Jardim II, nos idos de 1989, dançando ao som de Stay, do Oingo Boingo, eu me envergonho de mim mesma. Eu giro pro lado errado, eu derrubo o pompom no chão umas duas vezes, eu começo todos os passos depois de olhar pra a minha amiga do lado pra ver o que ela estava fazendo. Não sei como minha mãe na platéia, grávida do meu irmão, não entrou em trabalho de parto de tanto constrangimento.

De lá pra cá, não dá pra dizer que a coisa melhorou muito. Eu sempre fui daquelas que ficava segurando os copos de cerveja enquanto o pessoal se acabava na pista. Eu nunca aprendi nenhuma coreografia do É o Tchan, nem do Gerasamba. Eu nem sequer consegui dominar por completo os passinhos da Macarena. Eu assisti do sofá a todas as minhas amigas imitarem com perfeição os movimentos de Everybody, dos Backstreet Boys. O máximo que eu sempre consegui foi batucar os dedos na mesa – e geralmente eu precisava estar prestando bastante atenção, se não perdia o ritmo.

Sem falar do medo de, numa ocasião dançante qualquer, ser puxada por um cavalheiro, com o argumento de que “mulher nasce sabendo” ou “pode deixar que eu te guio”. Porque, como eu já disse lá em cima, não, eu não nasci sabendo. E, francamente, guiar uma porta, eu tento então explicar para o rapaz, seria bem menos desconfortável. Mais fácil fingir um ataque severo de epilepsia que se deixar ser levada para a pista.

Até que um dia eu resolvi que ia ser a última vez que eu ia passar vergonha. Que eu iria enfrentar a situação de frente. Joguei ‘dança de salão’ no Google e me matriculei na escola que apareceu no topo da busca. O curso era para quem não conhecia nada, então tinha um mês de cada ritmo. Comecei com o samba-rock, mas eu poderia ter começado com a valsa vienense, com o tango ou com o cha cha cha, que pra mim era tudo a mesma coisa.

Chegando na escola, minha aula era depois de um grupo ultra avançado (ou, de repente, eles estavam no segundo dia do curso básico. De novo, era tudo a mesma coisa para mim). Eu gelei. Fiz menção de correr dali a passos largos algumas vezes. Mas tal era a desenvoltura daquele povo, que eu comecei a questionar a minha habilidade de sequer mexer as pernas coordenadamente, e acabei ficando.

Se me dissessem, a essa altura do campeonato, que esse casal está dançando forró, I would totally buy it.

A aula começou com o professor explicando o que era samba rock. Senti que eu deveria ter levado um caderno para fazer anotações. Daí ele ligou a música e eu quase fiz xixi de medo. Fizemos alguns passinhos olhando para o espelho. Dois pra lá, dois pra cá. Um, dois, três, um, dois, três. Quando eu estava começando a me sentir menos deselegante, ele pediu que cada moço convidasse uma moça para ser seu par. E aí, e eu estou só conjecturando, porque minha memória desse momento está bloqueada para todo o sempre, eu realmente devo ter me mijado de pavor.

Porque pensa, se é difícil fazer tudo aquilo sozinha, imagina coordenar tudo aquilo com alguém?

Mas esse é só o começo. Hoje, alguns meses, diversas aulas e muitos pisões de pé depois, posso dizer que sou uma pessoa realizada. Consigo não passar mais vergonha no samba-rock, na gafieira e no forró, mando um ou outro passinho de salsa e até merengue já dancei. (eu aprendi alguns passos básicos de zouk também, mas por alguma razão, não consigo me afeiçoar com o negócio). Não é improvável que você me encontre no Diquinta, no Canto da Ema, ou numa boca de dança qualquer por aí.

E essa é uma história de determinação, dedicação e força de vontade. Cole no seu mural do Facebook, recomende no Twitter, crie uma corrente de e-mail, envie para aqueles que passam por um momento de dificuldade.

Porque se eu consegui aprender a dançar, meu amigo, qualquer um é capaz de qualquer coisa.

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Gramática

Esses dias, eu fazendo um exercício de gramática com um aluno. A tarefa era completar a frase:

“My mother is working today, so my father ________________ dinner”

A resposta do livro era “is going to cook”.

Meu aluno, enquanto o livro vinha com a farinha, já voltava com o bolo, e preencheu:

“My mother is working today, so my father is not going to have dinner”

Dá pra discordar???

Palavras

Quando eu tinha três anos e meio, fui para a escolinha pela primeira vez. Eu, até então filha única e muito tímida, chorava a cada dia, inventava doenças fictícias, dores de barriga e de cabeça, mas não tinha jeito, todo dia me deixavam na porta da escola, com minha lancheira e meu inseparável boneco de pano – chamado Bió -, para mais quatro horas, do que, para mim, não passava de tortura infantil.

Um dia, depois do lanche, fui acometida por um soluço insistente daqueles que só passam bebendo água do copo ao contrário ou levando um baita susto. Na mesma hora, fui me queixar para a professora. “Engoli um sapo”. A professora, nada inventiva, não entendeu o que eu queria dizer com aquilo. E eu simplesmente não tinha outras palavras para explicar o que estava sentindo.

O que, num primeiro momento, causou riso e uma certa estranheza, foi ganhando contornos dramáticos. Irritada com o soluço, eu insistentemente reclamava do sapo que habitava minha barriga. As professoras, em conjunto, tentavam descobrir o que aquilo significava. Um bom tempo se passou até que uma delas relacionasse a expressão com os soluços. Não lembro se me deram água, ou um susto, mas, no fim, sei que eles foram embora.

Daí para frente, minha vida escolar, que com o tempo passou a ser menos torturante para mim, passou a ser recheadas de risos, geralmente causados por mim. Foi assim quando uma das minhas colegas, após experimentar um pedaço de bolo que eu tinha levado de lanche, perguntou do que era o bolo, e eu, prontamente respondi “De caixa!”. Ou quando a professora perguntou quem era o presidente da república e eu, mesmo sabendo, disse que não podia falar. É que em casa, em um sinal de repulsa, estávamos proibidos de pronunciar a palavra “Collor” (a gente também não podia falar o nome da locadora da esquina, que se chamava “Collor Vídeo”).

Talvez seja pela estranha convivência com as palavras inventadas pela minha mãe ou pela vergonha que elas me causaram durante toda minha vida pré-escolar, criei gosto pela Língua Portuguesa, e acabei me tornando uma jornalista. E continuo comendo bolo de caixa, engolindo sapos e me recusando terminantemente a pronunciar certas palavras.

(Esse texto foi escrito há um tempo, quando eu ainda estava na faculdade de Jornalismo. Lembrei dele ao ler esse post da Isa, sobre a sublime arte de potchar.)

Explicado.

Um tempinho atrás, em uma festa com umas amigas da faculdade, a menina chegou com o menino. Baixinho, sem muitos atrativos, o menino. A turma ficou só na espreita, até que uma das outras meninas comentou:

– Poxa, eu não dava nada por ele, mas olha só, agora está explicado.

O menino pegou a menina pelo pescoço, deslizou a mão por sua nuca e, ao se encontrarem os dedos com os primeiros fios de cabelo, puxou-os pela raiz, com força e suavidade ao mesmo tempo (um pouco mais de força, é verdade). Depois, largou os cabelos da menina, e afagou novamente sua nuca, agora percorrendo com as mãos o caminho até os quadris.

Simples e gostoso assim.

Tom Sawyer, Huckleberry Finn e o engarrafamento

Às três e meia da tarde, eu e mais um bando de pessoas entramos no 875-C, Terminal Lapa, no seu ponto inicial, num terminal dentro do Shooping Santa Cruz.

Às quinze para as quatro, o bando descia a Pedro de Toledo a passos de tartaruga. Eu mordia as unhas de desespero, rezando para que o bandidão não visse Tom e Huck logo ali, enterrando o tesouro.

Às quatro e cinco, o ônibus cruzou a avenida Sabiá. Alheia à minha localização geográfica, eu suava frio pelos meninos, correndo desvairadamente pelas ruas de St. Petesburg, após quase serem pegos espreitando os negócios desonestos de quem não deviam.

A coisa pegou fogo às quatro e vinte. Huck e Tom finalmente descobriram onde estava guardado o tesouro de mais tantas centenas de dólares. Ao ouvir uma bufada do passageiro ao meu lado, percebi que estávamos parados no mesmíssimo lugar em que nos encontrávamos dez minutos atrás.

De acordo com relatos do meu companheiro de banco, que achou de desabafar comigo sobre a situação, demoramos 40 minutos para percorrer a Faria Lima. Não percebi. Tentei argumentar que estava muito absorta com as buscas intermináveis por Tom e Becky, perdidos há mais de dois dias dentro dos túneis de uma caverna perto do vilarejo. “Ô Motorista, dá pra ir mais rápido que eu quero chegar em casa? Eu trabalhei o dia inteiro e mereço descanço.” “Ai, grita mais alto, alguém vai ouvir vocês, grita, grita!!!” “VAI DESCEEEEEEEER” “Não, Becky, não desiste, eles estão quase chegando!!” “Vai desceeeeer, cacete!” E ainda por cima Huckleberry em casa, delirando e com febre de quarenta graus.

Chegando na Pedroso de Moraes, às 17h10, a coisa melhorou. O trânsito começou a fluir com tranquilidade, Tom e Becky estavam sãos e salvos em suas respectivas casas e Huck começando a melhorar.

Com tudo correndo bem, fechei o livro. Faltavam 15 páginas para o fim, quinze minutos para chegar em casa. Guardei o restinho para o aperta-aperta do metrô amanhã de manhã.

Em três horas…

Eu poderia ir, voltar e ir de novo pra Campinas.

Eu poderia ir pra Leme, cidade da minha mãe, e ainda parar na estrada pra comer um espetinho de frango.

Eu poderia assistir Titanic inteirinho, as duas fitas.

Eu poderia ler um dos livros que estão na fila dos que eu preciso ler.

Eu poderia ter ouvido uns quatro álbuns dos Beatles.

Eu poderia ter dormido a mesma quantidade de horas que dormi essa noite.

Eu poderia estar a mais de meio caminho andado de São Paulo até Lima, de avião, ou quase chegando em Nova York de ônibus, saindo de Washington DC.

Eu poderia ter cortado meu cabelo, coisa que eu preciso há tempos, lavado, secado, feito escova de chocolate, maionese e quaisquer outros condimentos que eu quisesse.

Eu poderia ter bebido até cair no chão da Augusta, levantado, e bebido mais um pouco.

Mas eu escolhi percorrer, de ônibus, numa sexta-feira à noite, os 14km que separam meu trabalho da minha casa.

A 4,6km/h.

Fantástico.

Série: Ônibus

Três histórias que me ocorreram dentro do coletivo, e que foram publicadas entre 2006 e 2008 num blog antigo.

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– Eu era tão feio que nem minha mãe me quis!

Adotado ainda bebê, ele tinha raquitismo e mais um monte de doenças.

– Desculpa o comentário moça, mas você não tem barriga nenhuma!!! Como você consegue? Sabe, é que eu já perdi 360 quilos. Fiz cirurgia de estômago e fiquei dois anos internado.

Engordou de tanto tomar remédio quando criança. Depois da cirurgia de redução do estômago, ficou com artrose como sequela.

– Caaaalma moça! Tem que encostar o cartão se não você não passa!

Em São Paulo há dez meses, trabalha como cobrador de ônibus há dois.

– Vim pra São Paulo com emprego, mas saí porque meu chefe era muito nervoso! Fiquei um mês pensando no que fazer… pensando em voltar pra casa… Daí consegui este emprego porque tinha vaga pra deficiente. Preenchi a ficha num dia, no outro comecei a trabalhar.

O sotaque arrastado não nega sua origem.

– Sou de um dos quatro “b” de Minas: Belzonte, Beraba, Berlândia e a bosta de Araguari! Hahaha, eles ficam danados quando a gente fala isso!

Do salário que ganha como cobrador, boa parte vai para os pais, que continuaram em Minas.

– Meu pai tá com aquele maldito câncer de próstata. E o velho é teimoso e não trata…

Por causa da falta de dinheiro, mora num galpão atrás de um bar, do outro lado da rua em relação à garagem de ônibus.

– Eu pago setenta reais. Se eu gastar mais, não tenho como mandar nada pros meus pais. Tem uma cama com um cobertor, mas eu quero comprar mais um porque tá muito frio, e ataca minha artrose. Mas é jóia lá. Seu Hélio do bar é gente fina, deixa eu comer e pagar só no dia 20.

Além disso, tem más recordações das pensões.

– Eu dormia num quartinho com mais um homem numa pensão em Guarulhos. Eu não tinha nada de valor, só uma coleção de isqueiros que eu juntei por 15 anos. E não é que me levaram a coleção embora? E levaram também uma garrafinha de plástico de água. No galpão eu durmo sozinho, é jóia.

Durante uma tentativa frustrada de paquerar uma passageira, descobre que ela é casada.

– É bom ser casar?

Solteiro, sua única família são os pais.

– Minha mãe chora todos os dias pedindo pra eu voltar. Aqui em São Paulo? Aqui somos só eu e Deus! E meus anjos da guarda!

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Ela entrou no ônibus e sentou na primeira cadeira, reservada para idosos, gestantes, deficientes físicos e mulheres portando crianças de colo. Mas duvido que se entrasse alguém que cumprisse um desses requisitos iriam ter coragem de mandar ela levantar.

Subiu com dificuldade e sentou com cuidado, equilibrando duas bolsas, uma pasta e um celular pendurado na orelha. Ela era gordinha, bem gordinha, e isso só dificultou o processo.

Mal colocou a bunda na cadeira, desatou a engatar uma conversa telefônica na outra. Às vezes, ela intercalava ligações para a mesma pessoa. No total, devem ter sido uns cinco ou seis interlocutores, umas dez ou doze chamadas.

Um deles devia ser um irmão. Podia ser uma irmã, mas por algum motivo eu presumi que fosse um irmão. Ela contava do terror de um depósito estornado pela Nossa Caixa. Era o pagamento do condomínio da mãe dela. 500 reais. Minha pobre cabecinha de pobre que mora em prédio de dois andares não pode conceber como alguém gasta 500 reais no condomínio. Mas enfim.

A coisa é que ela fez o depósito no dia 5, mas os filasdaputa do banco só avisaram do estorno ontem. A pobrezinha teve que tirar o dinheiro da aplicação para pagar o condomínio e ainda teve que arcar com multa por atraso. E ainda ia ter que tirar dinheiro da suada aplicação para pagar o mercado e a consulta médica da mãe. O resto, o irmão ficou de pagar.

E ela ainda teve que aguentar a grosseria da funcionária do banco. Também pudera. Quem passou o telefone dela pra o banco foi o ex-marido. O louco, louco, lou-co, LOUCO do ex-marido. A mulher do banco passou um carão.

Aí foi aquele sufoco. E ainda por cima, a mãe dela que não deixou os documentos em cima da mesa como ela pediu. A porra dos documentos, como ouviu o irmão (ou irmã). Mas ela ama a mãe dela, e isso é o que importa no final.

Nos curtos intervalos entre as chamadas (enquanto o próximo não atendia) ela bufava, suspirava, falava sozinha. Deve ter sido o baque da separação. Ela saiu de casa do ex-marido na sexta, e ainda precisava ir pegar as cartas e contas no prédio dele (na rua Aimberê), com o simpático porteiro. Como será que ela aguentou ficar casada com aquele LOU-CO?

Com o mesmo jeito desajeitado da subida, ela desceu do ônibus. Pela frente, não sei por quê. Eu desci no mesmo ponto, pela porta de trás. Quando passei do seu lado, vi pela primeira vez seu rosto. Bonita.

Pensei em dar um tapinha nas costas dela e dizer “relaxa, vai dar tudo certo”. Mas deixei pra lá.

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Ontem eu peguei ônibus com o Manoel Carlos. Verdade!

Tá, na verdade, é provável que fosse alguém bem parecido com ele. Mas como na minha vida reina o improvável, resolvi assumir que era ele. Por precaução. Melhor ficar bonitinha, né? Porque eu pensei… Ele mora no Rio e, certamente, não anda de busão, então, com certeza, deve estar… hmmm, sei lá, procurando personagens para sua novela… Vai saber… tem sempre um núcleo pobre, né?

Assim, na iminência de me tornar uma Helena, uma Clara ou algo do tipo, resolvi me comportar direitinho, o que significa, em termos práticos, deixar de lado quase todos os traços da minha personalidade habitual. Aliás, sorte que eu sou menina. Se fosse menino, o nome do meu personagem seria Fred, ou Viriato. Aliás, alguém já viu alguém chamado Viriato em algum lugar que não fosse uma novela do Manoel Carlos?

Então, na janela estava sentado o Maneco, só observando e tomando notas mentais para o novo folhetim das oito. Eu estava na cadeira do corredor. Daí entra um senhor e se posta bem do meu lado. Assim, quando você está sentado e fica alguém de pé, virado para você. Só que o senhor estava com a braguilha aberta. Eu então concentrei todo o meu pensamento positivo na hipótese daquilo não ser proposital. Afinal, em um ônibus lotado, a coisa que você menos quer é ter um tarado com a braguilha aberta apontada para você. Ele provavelmente vai ser Viriato, o desatento. (eu me lembro que em uma o Viriato era o impotente)

Atrás de mim, duas meninas conversavam sobre temas corriqueiros, como a solidão dos cachorros e a comunicação dos passarinhos, feita, é claro, por meio do silêncio (ao contrário de nós seres humanos, que preferimos a fala). De repente, elas começaram a falar sobre o último livro do Harry Potter, que tinham terminado de ler. E, numa dessas, uma delas fez um comentário sobre alguma coisa do final do livro.

Nisso, uma menina, que estava atrás delas (a duas cadeiras da minha), começou um escândalo. Ela estava lendo o livro, ainda, e ficou puta com a indiscrição das meninas, contando o final para quem quisesse ouvir. Foi briga mesmo, de falar alto e colocar o dedo na cara, mas eu, infelizmente, tive que descer do ônibus dois pontos depois, e não fiquei a tempo de ver o sangue e tudo mais. Não que eu não abriria mão de descer no meu ponto só pra ouvir a briga, mas é que o Mr. Braguilha realmente já estava me irritando.

Mas, se a novela fosse minha, e eu quase sugeri isso para o Maneco, aquelas que contaram o final do livro seriam as do mal. Afinal, poxa, isso não se faz. Eu não li nenhum dos Harry Potter (é, e eu também não gosto do Johnny Depp, tá, podem me cruxificar), mas se fosse Lost, por exemplo, eu também partia para a porrada.

Na hora de descer, me esqueci da minha promessa de bom comportamento, e derrubei três livros, minha piauí, uma blusa e uma moedinha de um real (que está perdida até agora), que se espalharam por todo o chão do ônibus.

A próxima novela das oito vai pegar fogo.

Pelo menos no que diz respeito ao núcleo pobre.

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Aula

Sentei na mesa do lado de cá. Ele do lado de lá. Ele querendo aprender Inglês, eu querendo aprender a dar aula. Ele, com medo de não acompanhar o livro, eu, com medo de me perder e fazer papel de boba. Mas a coisa fluiu. Ele, melhor aluno do que se imaginava. Eu, um pouco menos pior do que eu temia.

Dá medo começar um trabalho novo!

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Língua

Aula de tradução na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP: em um grupo de cinco, temos que verter um texto originalmente em Português para o Inglês. Essa frase está muito longa, vamos colocar uns pontos finais; esse período está entrecortado, tem que trocar a ordem das informações. Calma, espera. Estamos traduzindo, não editando. Ah, é.

Expectadores. Assim, com x, mas como quem quer dizer espectadores. De tantos erros que eu poderia ter cometido – e cometi – no meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, foi esse o que não me deixou dormir por dias. E se pensarem que eu não sei escrever? Porque eu sei. Foi a canseira de quase um ano de trabalho que causou a troca de uma letra pela outra. Quase interrompi os argüidores: vejam bem, eu sei muito bem o que é expectador e o que é espectador. Mas me contive.

Sempre tive uma queda pela Língua Portuguesa. Na escola, era uma das poucas que aturavam as aulas de Gramática. No primário, todas as minhas redações iam para a lousa, para serem copiadas pelos outros alunos. Penso mil vezes antes de escrever um texto. E, como texto, falo em tudo que vá de uma reportagem a uma mensagem para ser enviada pelo celular. E reescrevo mil vezes até considerar bom o bastante.

Outro dia, encontrei uma comunidade no Orkut com a descrição copiada de uma criada por mim. Três linhas, informações básicas. Mas escritas com tanto esmero. Pedi, por favor, que fosse trocada por qualquer outra coisa, porque, poxa, fui eu que escrevi aquilo. Sou da turma dos que entraram na faculdade de jornalismo porque gostam de escrever. E que depois descobrem que vão ter que apurar, entrevistar, decupar, transcrever… Mas tudo bem, a gente se acostuma, e pega gosto.

Nos meus livros preferidos, não estão anotadas as idéias mais marcantes, ou as passagens que mais me tocam. Mas estão grifadas as frases mais bem construídas. Aquelas que eu gostaria de ter escrito, mesmo que, em substância, queiram dizer algo extremamente banal. Não que as idéias não sejam importantes, mas é que me apaixono por qualquer trecho bem escrito.

(Esse texto foi escrito há mais de um ano, e publicado no umpoucodebossa.blogspot.com. Está sendo publicado aqui porque nunca tinha saído num blog meu.)

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Bem-Te-Vi

E se escrever não for que nem andar de bicicleta?

Há dias estava atrás de criar um blog novo. Com a cara daqueles que eu gosto de ler, e daqueles que já escrevi.

Faltava um nome.

Nos dias de muito calor, prefiro sentar para escrever no quarto dos meus pais. A janela, além de um ventinho gostoso que amansa – um pouco – o calor, também oferece uma visão privilegiada: daqui dá pra ver grande parte das zonas oeste e norte de São Paulo, além do pico do Jaraguá e da Serra da Cantareira. Em intervalos de alguns minutos, a gente também consegue ver os aviões, que passam pequenininhos, a caminho de Cumbica.

A dúvida martelando dia e noite, noite e dia. E se fosse um pedacinho de uma música dos Beatles? Ou de Caetano? Ou se eu pegasse uma frase bonita de “Cem Anos de Solidão”?

Ainda da janela, dá pra ver um terreno, que daqui pouco tempo será um condomínio de duas torres, com apartamentos de 3 e 4 dormitórios, onde fica uma mangueira, que de vez em quando dá um punhado de frutas mirradas. De algum jeito, a mangueira sobreviveu às mudanças de própósito do lugar, que já foi garagem de ônibus e estacionamento de carros antes de abrigar o atual modelo decorado.

Na pontinha de um galho da mangueira, o passarinho de peito amarelo gritou. “BEM TE VI!”

Estava decidido.

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