Palavras

Quando eu tinha três anos e meio, fui para a escolinha pela primeira vez. Eu, até então filha única e muito tímida, chorava a cada dia, inventava doenças fictícias, dores de barriga e de cabeça, mas não tinha jeito, todo dia me deixavam na porta da escola, com minha lancheira e meu inseparável boneco de pano – chamado Bió -, para mais quatro horas, do que, para mim, não passava de tortura infantil.

Um dia, depois do lanche, fui acometida por um soluço insistente daqueles que só passam bebendo água do copo ao contrário ou levando um baita susto. Na mesma hora, fui me queixar para a professora. “Engoli um sapo”. A professora, nada inventiva, não entendeu o que eu queria dizer com aquilo. E eu simplesmente não tinha outras palavras para explicar o que estava sentindo.

O que, num primeiro momento, causou riso e uma certa estranheza, foi ganhando contornos dramáticos. Irritada com o soluço, eu insistentemente reclamava do sapo que habitava minha barriga. As professoras, em conjunto, tentavam descobrir o que aquilo significava. Um bom tempo se passou até que uma delas relacionasse a expressão com os soluços. Não lembro se me deram água, ou um susto, mas, no fim, sei que eles foram embora.

Daí para frente, minha vida escolar, que com o tempo passou a ser menos torturante para mim, passou a ser recheadas de risos, geralmente causados por mim. Foi assim quando uma das minhas colegas, após experimentar um pedaço de bolo que eu tinha levado de lanche, perguntou do que era o bolo, e eu, prontamente respondi “De caixa!”. Ou quando a professora perguntou quem era o presidente da república e eu, mesmo sabendo, disse que não podia falar. É que em casa, em um sinal de repulsa, estávamos proibidos de pronunciar a palavra “Collor” (a gente também não podia falar o nome da locadora da esquina, que se chamava “Collor Vídeo”).

Talvez seja pela estranha convivência com as palavras inventadas pela minha mãe ou pela vergonha que elas me causaram durante toda minha vida pré-escolar, criei gosto pela Língua Portuguesa, e acabei me tornando uma jornalista. E continuo comendo bolo de caixa, engolindo sapos e me recusando terminantemente a pronunciar certas palavras.

(Esse texto foi escrito há um tempo, quando eu ainda estava na faculdade de Jornalismo. Lembrei dele ao ler esse post da Isa, sobre a sublime arte de potchar.)

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