Arquivo mensal: junho 2010

Gramática

Esses dias, eu fazendo um exercício de gramática com um aluno. A tarefa era completar a frase:

“My mother is working today, so my father ________________ dinner”

A resposta do livro era “is going to cook”.

Meu aluno, enquanto o livro vinha com a farinha, já voltava com o bolo, e preencheu:

“My mother is working today, so my father is not going to have dinner”

Dá pra discordar???

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Palavras

Quando eu tinha três anos e meio, fui para a escolinha pela primeira vez. Eu, até então filha única e muito tímida, chorava a cada dia, inventava doenças fictícias, dores de barriga e de cabeça, mas não tinha jeito, todo dia me deixavam na porta da escola, com minha lancheira e meu inseparável boneco de pano – chamado Bió -, para mais quatro horas, do que, para mim, não passava de tortura infantil.

Um dia, depois do lanche, fui acometida por um soluço insistente daqueles que só passam bebendo água do copo ao contrário ou levando um baita susto. Na mesma hora, fui me queixar para a professora. “Engoli um sapo”. A professora, nada inventiva, não entendeu o que eu queria dizer com aquilo. E eu simplesmente não tinha outras palavras para explicar o que estava sentindo.

O que, num primeiro momento, causou riso e uma certa estranheza, foi ganhando contornos dramáticos. Irritada com o soluço, eu insistentemente reclamava do sapo que habitava minha barriga. As professoras, em conjunto, tentavam descobrir o que aquilo significava. Um bom tempo se passou até que uma delas relacionasse a expressão com os soluços. Não lembro se me deram água, ou um susto, mas, no fim, sei que eles foram embora.

Daí para frente, minha vida escolar, que com o tempo passou a ser menos torturante para mim, passou a ser recheadas de risos, geralmente causados por mim. Foi assim quando uma das minhas colegas, após experimentar um pedaço de bolo que eu tinha levado de lanche, perguntou do que era o bolo, e eu, prontamente respondi “De caixa!”. Ou quando a professora perguntou quem era o presidente da república e eu, mesmo sabendo, disse que não podia falar. É que em casa, em um sinal de repulsa, estávamos proibidos de pronunciar a palavra “Collor” (a gente também não podia falar o nome da locadora da esquina, que se chamava “Collor Vídeo”).

Talvez seja pela estranha convivência com as palavras inventadas pela minha mãe ou pela vergonha que elas me causaram durante toda minha vida pré-escolar, criei gosto pela Língua Portuguesa, e acabei me tornando uma jornalista. E continuo comendo bolo de caixa, engolindo sapos e me recusando terminantemente a pronunciar certas palavras.

(Esse texto foi escrito há um tempo, quando eu ainda estava na faculdade de Jornalismo. Lembrei dele ao ler esse post da Isa, sobre a sublime arte de potchar.)

Explicado.

Um tempinho atrás, em uma festa com umas amigas da faculdade, a menina chegou com o menino. Baixinho, sem muitos atrativos, o menino. A turma ficou só na espreita, até que uma das outras meninas comentou:

– Poxa, eu não dava nada por ele, mas olha só, agora está explicado.

O menino pegou a menina pelo pescoço, deslizou a mão por sua nuca e, ao se encontrarem os dedos com os primeiros fios de cabelo, puxou-os pela raiz, com força e suavidade ao mesmo tempo (um pouco mais de força, é verdade). Depois, largou os cabelos da menina, e afagou novamente sua nuca, agora percorrendo com as mãos o caminho até os quadris.

Simples e gostoso assim.

Tom Sawyer, Huckleberry Finn e o engarrafamento

Às três e meia da tarde, eu e mais um bando de pessoas entramos no 875-C, Terminal Lapa, no seu ponto inicial, num terminal dentro do Shooping Santa Cruz.

Às quinze para as quatro, o bando descia a Pedro de Toledo a passos de tartaruga. Eu mordia as unhas de desespero, rezando para que o bandidão não visse Tom e Huck logo ali, enterrando o tesouro.

Às quatro e cinco, o ônibus cruzou a avenida Sabiá. Alheia à minha localização geográfica, eu suava frio pelos meninos, correndo desvairadamente pelas ruas de St. Petesburg, após quase serem pegos espreitando os negócios desonestos de quem não deviam.

A coisa pegou fogo às quatro e vinte. Huck e Tom finalmente descobriram onde estava guardado o tesouro de mais tantas centenas de dólares. Ao ouvir uma bufada do passageiro ao meu lado, percebi que estávamos parados no mesmíssimo lugar em que nos encontrávamos dez minutos atrás.

De acordo com relatos do meu companheiro de banco, que achou de desabafar comigo sobre a situação, demoramos 40 minutos para percorrer a Faria Lima. Não percebi. Tentei argumentar que estava muito absorta com as buscas intermináveis por Tom e Becky, perdidos há mais de dois dias dentro dos túneis de uma caverna perto do vilarejo. “Ô Motorista, dá pra ir mais rápido que eu quero chegar em casa? Eu trabalhei o dia inteiro e mereço descanço.” “Ai, grita mais alto, alguém vai ouvir vocês, grita, grita!!!” “VAI DESCEEEEEEEER” “Não, Becky, não desiste, eles estão quase chegando!!” “Vai desceeeeer, cacete!” E ainda por cima Huckleberry em casa, delirando e com febre de quarenta graus.

Chegando na Pedroso de Moraes, às 17h10, a coisa melhorou. O trânsito começou a fluir com tranquilidade, Tom e Becky estavam sãos e salvos em suas respectivas casas e Huck começando a melhorar.

Com tudo correndo bem, fechei o livro. Faltavam 15 páginas para o fim, quinze minutos para chegar em casa. Guardei o restinho para o aperta-aperta do metrô amanhã de manhã.