Língua

Aula de tradução na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP: em um grupo de cinco, temos que verter um texto originalmente em Português para o Inglês. Essa frase está muito longa, vamos colocar uns pontos finais; esse período está entrecortado, tem que trocar a ordem das informações. Calma, espera. Estamos traduzindo, não editando. Ah, é.

Expectadores. Assim, com x, mas como quem quer dizer espectadores. De tantos erros que eu poderia ter cometido – e cometi – no meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, foi esse o que não me deixou dormir por dias. E se pensarem que eu não sei escrever? Porque eu sei. Foi a canseira de quase um ano de trabalho que causou a troca de uma letra pela outra. Quase interrompi os argüidores: vejam bem, eu sei muito bem o que é expectador e o que é espectador. Mas me contive.

Sempre tive uma queda pela Língua Portuguesa. Na escola, era uma das poucas que aturavam as aulas de Gramática. No primário, todas as minhas redações iam para a lousa, para serem copiadas pelos outros alunos. Penso mil vezes antes de escrever um texto. E, como texto, falo em tudo que vá de uma reportagem a uma mensagem para ser enviada pelo celular. E reescrevo mil vezes até considerar bom o bastante.

Outro dia, encontrei uma comunidade no Orkut com a descrição copiada de uma criada por mim. Três linhas, informações básicas. Mas escritas com tanto esmero. Pedi, por favor, que fosse trocada por qualquer outra coisa, porque, poxa, fui eu que escrevi aquilo. Sou da turma dos que entraram na faculdade de jornalismo porque gostam de escrever. E que depois descobrem que vão ter que apurar, entrevistar, decupar, transcrever… Mas tudo bem, a gente se acostuma, e pega gosto.

Nos meus livros preferidos, não estão anotadas as idéias mais marcantes, ou as passagens que mais me tocam. Mas estão grifadas as frases mais bem construídas. Aquelas que eu gostaria de ter escrito, mesmo que, em substância, queiram dizer algo extremamente banal. Não que as idéias não sejam importantes, mas é que me apaixono por qualquer trecho bem escrito.

(Esse texto foi escrito há mais de um ano, e publicado no umpoucodebossa.blogspot.com. Está sendo publicado aqui porque nunca tinha saído num blog meu.)

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2 pensamentos sobre “Língua

  1. Marília L. disse:

    Tem comunidade para isso também, não para trechos, mas para livros completos: “Inveja Literária”. Inveja é um termo meio forte, mas eu tenho. Literária e musical. Mais musical do que literária, nos últimos tempos.

  2. Natália disse:

    Eu lembro bem de quando eu postei esse texto teu. De todas as ‘Colunas de Quinta’ lembro especialmente desse texto, porque, assim como as marcações que tu faz nos livros, eu também gostaria de ter escrito esse texto.

    Português (L).

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