Arquivo mensal: fevereiro 2010

Série: Ônibus

Três histórias que me ocorreram dentro do coletivo, e que foram publicadas entre 2006 e 2008 num blog antigo.

—————————————————————————-

– Eu era tão feio que nem minha mãe me quis!

Adotado ainda bebê, ele tinha raquitismo e mais um monte de doenças.

– Desculpa o comentário moça, mas você não tem barriga nenhuma!!! Como você consegue? Sabe, é que eu já perdi 360 quilos. Fiz cirurgia de estômago e fiquei dois anos internado.

Engordou de tanto tomar remédio quando criança. Depois da cirurgia de redução do estômago, ficou com artrose como sequela.

– Caaaalma moça! Tem que encostar o cartão se não você não passa!

Em São Paulo há dez meses, trabalha como cobrador de ônibus há dois.

– Vim pra São Paulo com emprego, mas saí porque meu chefe era muito nervoso! Fiquei um mês pensando no que fazer… pensando em voltar pra casa… Daí consegui este emprego porque tinha vaga pra deficiente. Preenchi a ficha num dia, no outro comecei a trabalhar.

O sotaque arrastado não nega sua origem.

– Sou de um dos quatro “b” de Minas: Belzonte, Beraba, Berlândia e a bosta de Araguari! Hahaha, eles ficam danados quando a gente fala isso!

Do salário que ganha como cobrador, boa parte vai para os pais, que continuaram em Minas.

– Meu pai tá com aquele maldito câncer de próstata. E o velho é teimoso e não trata…

Por causa da falta de dinheiro, mora num galpão atrás de um bar, do outro lado da rua em relação à garagem de ônibus.

– Eu pago setenta reais. Se eu gastar mais, não tenho como mandar nada pros meus pais. Tem uma cama com um cobertor, mas eu quero comprar mais um porque tá muito frio, e ataca minha artrose. Mas é jóia lá. Seu Hélio do bar é gente fina, deixa eu comer e pagar só no dia 20.

Além disso, tem más recordações das pensões.

– Eu dormia num quartinho com mais um homem numa pensão em Guarulhos. Eu não tinha nada de valor, só uma coleção de isqueiros que eu juntei por 15 anos. E não é que me levaram a coleção embora? E levaram também uma garrafinha de plástico de água. No galpão eu durmo sozinho, é jóia.

Durante uma tentativa frustrada de paquerar uma passageira, descobre que ela é casada.

– É bom ser casar?

Solteiro, sua única família são os pais.

– Minha mãe chora todos os dias pedindo pra eu voltar. Aqui em São Paulo? Aqui somos só eu e Deus! E meus anjos da guarda!

—————————————————————————-

Ela entrou no ônibus e sentou na primeira cadeira, reservada para idosos, gestantes, deficientes físicos e mulheres portando crianças de colo. Mas duvido que se entrasse alguém que cumprisse um desses requisitos iriam ter coragem de mandar ela levantar.

Subiu com dificuldade e sentou com cuidado, equilibrando duas bolsas, uma pasta e um celular pendurado na orelha. Ela era gordinha, bem gordinha, e isso só dificultou o processo.

Mal colocou a bunda na cadeira, desatou a engatar uma conversa telefônica na outra. Às vezes, ela intercalava ligações para a mesma pessoa. No total, devem ter sido uns cinco ou seis interlocutores, umas dez ou doze chamadas.

Um deles devia ser um irmão. Podia ser uma irmã, mas por algum motivo eu presumi que fosse um irmão. Ela contava do terror de um depósito estornado pela Nossa Caixa. Era o pagamento do condomínio da mãe dela. 500 reais. Minha pobre cabecinha de pobre que mora em prédio de dois andares não pode conceber como alguém gasta 500 reais no condomínio. Mas enfim.

A coisa é que ela fez o depósito no dia 5, mas os filasdaputa do banco só avisaram do estorno ontem. A pobrezinha teve que tirar o dinheiro da aplicação para pagar o condomínio e ainda teve que arcar com multa por atraso. E ainda ia ter que tirar dinheiro da suada aplicação para pagar o mercado e a consulta médica da mãe. O resto, o irmão ficou de pagar.

E ela ainda teve que aguentar a grosseria da funcionária do banco. Também pudera. Quem passou o telefone dela pra o banco foi o ex-marido. O louco, louco, lou-co, LOUCO do ex-marido. A mulher do banco passou um carão.

Aí foi aquele sufoco. E ainda por cima, a mãe dela que não deixou os documentos em cima da mesa como ela pediu. A porra dos documentos, como ouviu o irmão (ou irmã). Mas ela ama a mãe dela, e isso é o que importa no final.

Nos curtos intervalos entre as chamadas (enquanto o próximo não atendia) ela bufava, suspirava, falava sozinha. Deve ter sido o baque da separação. Ela saiu de casa do ex-marido na sexta, e ainda precisava ir pegar as cartas e contas no prédio dele (na rua Aimberê), com o simpático porteiro. Como será que ela aguentou ficar casada com aquele LOU-CO?

Com o mesmo jeito desajeitado da subida, ela desceu do ônibus. Pela frente, não sei por quê. Eu desci no mesmo ponto, pela porta de trás. Quando passei do seu lado, vi pela primeira vez seu rosto. Bonita.

Pensei em dar um tapinha nas costas dela e dizer “relaxa, vai dar tudo certo”. Mas deixei pra lá.

—————————————————————————-

Ontem eu peguei ônibus com o Manoel Carlos. Verdade!

Tá, na verdade, é provável que fosse alguém bem parecido com ele. Mas como na minha vida reina o improvável, resolvi assumir que era ele. Por precaução. Melhor ficar bonitinha, né? Porque eu pensei… Ele mora no Rio e, certamente, não anda de busão, então, com certeza, deve estar… hmmm, sei lá, procurando personagens para sua novela… Vai saber… tem sempre um núcleo pobre, né?

Assim, na iminência de me tornar uma Helena, uma Clara ou algo do tipo, resolvi me comportar direitinho, o que significa, em termos práticos, deixar de lado quase todos os traços da minha personalidade habitual. Aliás, sorte que eu sou menina. Se fosse menino, o nome do meu personagem seria Fred, ou Viriato. Aliás, alguém já viu alguém chamado Viriato em algum lugar que não fosse uma novela do Manoel Carlos?

Então, na janela estava sentado o Maneco, só observando e tomando notas mentais para o novo folhetim das oito. Eu estava na cadeira do corredor. Daí entra um senhor e se posta bem do meu lado. Assim, quando você está sentado e fica alguém de pé, virado para você. Só que o senhor estava com a braguilha aberta. Eu então concentrei todo o meu pensamento positivo na hipótese daquilo não ser proposital. Afinal, em um ônibus lotado, a coisa que você menos quer é ter um tarado com a braguilha aberta apontada para você. Ele provavelmente vai ser Viriato, o desatento. (eu me lembro que em uma o Viriato era o impotente)

Atrás de mim, duas meninas conversavam sobre temas corriqueiros, como a solidão dos cachorros e a comunicação dos passarinhos, feita, é claro, por meio do silêncio (ao contrário de nós seres humanos, que preferimos a fala). De repente, elas começaram a falar sobre o último livro do Harry Potter, que tinham terminado de ler. E, numa dessas, uma delas fez um comentário sobre alguma coisa do final do livro.

Nisso, uma menina, que estava atrás delas (a duas cadeiras da minha), começou um escândalo. Ela estava lendo o livro, ainda, e ficou puta com a indiscrição das meninas, contando o final para quem quisesse ouvir. Foi briga mesmo, de falar alto e colocar o dedo na cara, mas eu, infelizmente, tive que descer do ônibus dois pontos depois, e não fiquei a tempo de ver o sangue e tudo mais. Não que eu não abriria mão de descer no meu ponto só pra ouvir a briga, mas é que o Mr. Braguilha realmente já estava me irritando.

Mas, se a novela fosse minha, e eu quase sugeri isso para o Maneco, aquelas que contaram o final do livro seriam as do mal. Afinal, poxa, isso não se faz. Eu não li nenhum dos Harry Potter (é, e eu também não gosto do Johnny Depp, tá, podem me cruxificar), mas se fosse Lost, por exemplo, eu também partia para a porrada.

Na hora de descer, me esqueci da minha promessa de bom comportamento, e derrubei três livros, minha piauí, uma blusa e uma moedinha de um real (que está perdida até agora), que se espalharam por todo o chão do ônibus.

A próxima novela das oito vai pegar fogo.

Pelo menos no que diz respeito ao núcleo pobre.

Anúncios
Etiquetado , ,

Aula

Sentei na mesa do lado de cá. Ele do lado de lá. Ele querendo aprender Inglês, eu querendo aprender a dar aula. Ele, com medo de não acompanhar o livro, eu, com medo de me perder e fazer papel de boba. Mas a coisa fluiu. Ele, melhor aluno do que se imaginava. Eu, um pouco menos pior do que eu temia.

Dá medo começar um trabalho novo!

Etiquetado , , , ,

Língua

Aula de tradução na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP: em um grupo de cinco, temos que verter um texto originalmente em Português para o Inglês. Essa frase está muito longa, vamos colocar uns pontos finais; esse período está entrecortado, tem que trocar a ordem das informações. Calma, espera. Estamos traduzindo, não editando. Ah, é.

Expectadores. Assim, com x, mas como quem quer dizer espectadores. De tantos erros que eu poderia ter cometido – e cometi – no meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, foi esse o que não me deixou dormir por dias. E se pensarem que eu não sei escrever? Porque eu sei. Foi a canseira de quase um ano de trabalho que causou a troca de uma letra pela outra. Quase interrompi os argüidores: vejam bem, eu sei muito bem o que é expectador e o que é espectador. Mas me contive.

Sempre tive uma queda pela Língua Portuguesa. Na escola, era uma das poucas que aturavam as aulas de Gramática. No primário, todas as minhas redações iam para a lousa, para serem copiadas pelos outros alunos. Penso mil vezes antes de escrever um texto. E, como texto, falo em tudo que vá de uma reportagem a uma mensagem para ser enviada pelo celular. E reescrevo mil vezes até considerar bom o bastante.

Outro dia, encontrei uma comunidade no Orkut com a descrição copiada de uma criada por mim. Três linhas, informações básicas. Mas escritas com tanto esmero. Pedi, por favor, que fosse trocada por qualquer outra coisa, porque, poxa, fui eu que escrevi aquilo. Sou da turma dos que entraram na faculdade de jornalismo porque gostam de escrever. E que depois descobrem que vão ter que apurar, entrevistar, decupar, transcrever… Mas tudo bem, a gente se acostuma, e pega gosto.

Nos meus livros preferidos, não estão anotadas as idéias mais marcantes, ou as passagens que mais me tocam. Mas estão grifadas as frases mais bem construídas. Aquelas que eu gostaria de ter escrito, mesmo que, em substância, queiram dizer algo extremamente banal. Não que as idéias não sejam importantes, mas é que me apaixono por qualquer trecho bem escrito.

(Esse texto foi escrito há mais de um ano, e publicado no umpoucodebossa.blogspot.com. Está sendo publicado aqui porque nunca tinha saído num blog meu.)

Etiquetado , ,

Bem-Te-Vi

E se escrever não for que nem andar de bicicleta?

Há dias estava atrás de criar um blog novo. Com a cara daqueles que eu gosto de ler, e daqueles que já escrevi.

Faltava um nome.

Nos dias de muito calor, prefiro sentar para escrever no quarto dos meus pais. A janela, além de um ventinho gostoso que amansa – um pouco – o calor, também oferece uma visão privilegiada: daqui dá pra ver grande parte das zonas oeste e norte de São Paulo, além do pico do Jaraguá e da Serra da Cantareira. Em intervalos de alguns minutos, a gente também consegue ver os aviões, que passam pequenininhos, a caminho de Cumbica.

A dúvida martelando dia e noite, noite e dia. E se fosse um pedacinho de uma música dos Beatles? Ou de Caetano? Ou se eu pegasse uma frase bonita de “Cem Anos de Solidão”?

Ainda da janela, dá pra ver um terreno, que daqui pouco tempo será um condomínio de duas torres, com apartamentos de 3 e 4 dormitórios, onde fica uma mangueira, que de vez em quando dá um punhado de frutas mirradas. De algum jeito, a mangueira sobreviveu às mudanças de própósito do lugar, que já foi garagem de ônibus e estacionamento de carros antes de abrigar o atual modelo decorado.

Na pontinha de um galho da mangueira, o passarinho de peito amarelo gritou. “BEM TE VI!”

Estava decidido.

Etiquetado , , ,